|
|

CORES DA CIDADE FORTALEZA- PROJETO
DE RESTAURAÇÃO

Introdução:
Conhecer o passado não
é só estudá-lo , é conviver com ele. Passear
em suas ruas, usufruir de seus prédios, aprender a ler sua história
que a cidade deixa escrita em cada canto, em cada pedra, em cada fachada
e janela, em cada espaço.
Em Fortaleza o Projeto “Cores da Cidade Fortaleza” é
uma parceria da Fundação Roberto Marinho e da empresa
Tintas Ypiranga, através da Secretaria da Cultura e Desporto
do Ceará. Mas seu principal parceiro é a comunidade local.
O projeto tem como objetivos
beneficiar comerciantes , moradores e visitante. Todos os moradores
e comerciantes que tem suas casas na área do projeto podem participar.
Os interessados receberam o material de pintura necessário e
contam com a orientação técnica de especialistas
em Restauração de Monumentos do escritório de arquitetura
“Oficina de Projetos” para as obras realizadas nas fachadas.
Fundamentalmente a proposta é recuperar elementos de valor e
de forma, tal que se revalorizem e retomem sua importância dentro
do conjunto, recuperando o ambiente urbano, de forma harmoniosa e contemporânea.


Porto de Fortaleza

Dragão do Mar
Fortaleza : Um
pouco de sua história.
Quando Bernardo Manuel
de Vasconcelos, o primeiro Governador da Capitania do Ceará,
chegou à Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção,
em 1799, ficou decepcionado. A Vila, fundada em 13 de Abril de 1726,
não passava de “um montão de areia, apresentando
do lado pequenas casas térreas, incluindo a muito velha e arruinada
casa dos Governadores”.
O viajante inglês
Henry Koster visitou Fortaleza em 1810 e deu um diagnóstico mais
preciso. Na opinião dele, seria difícil fazer nascer uma
cidade sobre terreno tão arenoso. Além disso, faltava
um cais. Apesar do pessimismo do inglês, o ancoradouro da Prainha
ficou pronto e contrariando suas previsões, funcionava. Funcionava
bem. Foi graças a ele que Fortaleza deixo de ser apenas um areal
cheio de casas e iniciou suas atividades econômicas. O reconhecimento
oficial do esforço da população local não
custou a chegar. Em 17 de Março de 1823, por ordem imperial,
a Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção foi elevada
à categoria de cidade com o nome de Cidade de Fortaleza de Nova
Bragança e planta desenhada por Silva Paulet em 1818.
Dragão do Mar
Alguns anos depois de
virar cidade, o lugar foi calçado com pedras. Agora, os carros
de boi, carregados de algodão, já podiam ir e vir. Era
o começo da atividade mercantil que possibilitaria o início
do desenvolvimento da cidade.
Um cais, o calçamento
de pedras, o algodão. Parece pouco. Mas com base nisso, no fim
do século XIX Fortaleza já mantinha relações
comerciais com a Europa. O interesse internacional despertado pelo algodão
cearense chamou a atenção do resto do Brasil e logo chegaram
os navios a vapor, estimulando os negócios de importação
e exportação.
O comércio local
começou a se desenvolver. A cidade cresceu, a população
aumentou, surgiram os primeiros prédios públicos como
a Santa Casa de Misericórdia, a Cadeia Publica e a Assembléia
Provincial. Fortaleza não parecia mais um areal. Era preciso
um porto maior, cuja construção foi iniciada em 1923.
O surgimento do porto
do Mucuripe transferiu o embarque e desembarque de mercadorias e tirou
a razão original de ser da região da Prainha com seus
armazéns e edificações. Com o tempo, os prédios
do local foram ocupados por escritórios, transportadoras, bares,
prostíbulos, ateliês, restaurantes. Mas suas construções
mais antigas, como a casa Borís, a antiga Alfândega ( hoje
Caixa Econômica) guardaram aquela historia de 150 anos atrás,
do tempo em que Fortaleza começou a deixar de ser um areal desprezado
e virou uma cidade de verdade.
“A luz e a
cor, definidores do espaço físico, são como uma
musica que acompanha a cidade.”


Dragão do Mar
Critérios
de atuação

Rua Almirante
Jaceguai
Preservar o acervo arquitetónico
de uma cidade é resgatar sua memória e melhorar a qualidade
de vida de seus habitantes.
Restauração
é ato crítico. Nenhuma proposta de restauração
é neutra. Cabe-nos portanto a responsabilidade de estabelecer
um conjunto de critérios que orientem as intervenções,
assegurando ao monumento a sua autenticidade, a restituição
da sua capacidade evocativa, o seu passado presente.
Dentro do processo de
renovação urbana que seguiremos, levamos em conta dois
aspectos: a RESTAURAÇÃO ( Recuperação de
elementos de valor de um imóvel, conhecimento de seus valores
arquitetónicos e urbanísticos) e REABILITAÇÃO
( voltar a fazer aproveitável as estruturas mortas tanto dos
bens imóveis, como áreas urbanas).
Rua
Almirante Jaceguai
Rua Almirante Jaceguai

Rua Almirante Tamandaré
A área escolhida,
tombada a nível estadual, esta limitada entre as Avenidas Pessoa
Anta, Almirante Jaceguai, José Avelino e a famosa Rua Boris,
no entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com um
total de 56 imóveis entre sobrados e armazéns típicos
de regiões portarias.
O conjunto arquitetônico
que foi o objeto deste projeto foi um importante sítio de expansão
da cidade e que deixou retratado o desenvolvimento econômico de
Fortaleza. Hoje dentro deste conjunto foi construído o Centro
Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura. O complexo arquitetônico
do Centro Cultural tem uma área total de aproximadamente 30.000
m2, compostos por Memorial da Cultura Cearense, Museu de Arte do Ceará,
Anfiteatro, Planetário, Cinemas para 200 pessoas e Cine-Teatro
para 250 pessoas, Salas de aulas do Instituto Dragão do Mar de
Arte e Cultura e grandes espaços multifuncionais. O mais significativo
é a interação urbana entre dois pontos da cidade
através dos espaços do Centro sempre acompanhados por
um contexto histórico.
Por primeira vez o Projeto
Cores da Cidade se enfrenta a um projeto destas caraterísticas
onde se contrapõem o antigo com um projeto novo, o Centro Dragão
do Mar, com sua nova escala arquitetônica e intervenções
a nível urbano, já que foram apropriadas, modificadas
e alargadas ruas e praça integrando-as a outras, obrigando a
um novo desenho urbano, onde o conjunto antigo mudou totalmente de contexto.
O componente cromático
do Centro Dragão do Mar foi levado em conta como premissa para
nossa proposta (Branco nos grandes panos, cinza como detalhes de revestimento
de mármores e vermelho nos componentes metálicos).O material
utilizado como pavimento também influiu cromaticamente ( pedra
portuguesa em grandes áreas pavimentadas branca, com algumas
áreas em negro).
   
Rua José Avelino
Dentro do conjunto se
definem claramente varias épocas de construção,
estilos arquitetónicos e por tanto diferentes níveis de
riqueza arquitetônica, sendo o conjunto em sua totalidade de grande
valor.
O primeiro passo dentro
da metodologia a ser aplicada foi conhecer a história do lugar,
suas transformações, evolução arquitetônica,
seu contexto e o repertório da cidade onde foi gerado este conjunto.
Iniciou-se o trabalho com a elaboração de um inventário
arquitetônico e de deterioro para cada imóvel com preenchimento
de fichas catalográficas para criar um banco de dados. Nestas
fichas, se anotaram as caraterísticas morfológicas de
cada edifício, dos seus elementos compositivos ( sacadas, fechamentos,
postigos, ornamentos) e se executaram prospecções em alguns
pontos pre-determinados para garantir as hipóteses sobre algumas
das alterações. Foram executados prospecções
estratigráficas que nos revelaram as cores originais, que nortearam
de forma inequívoca o nosso projeto.
Inicialmente procuramos
determinar as regiões mais adequadas à prospecção
onde a fotografia foi de grande ajuda. Além do reconhecimento
das sucessivas camadas de pintura que o prédio recebeu ao longo
dos anos, nosso principal objetivo foi reconhecer as cores mais antigas
e por conseqüência a cor original primária, onde foram
encontradas as informação sobre a pigmentação
empregada, dado que a intensidade era impossível determinar visto
que tanto a base como os pigmentos empregados nas tintas eram de inferior
qualidade, pois a cor, com o nosso sol, só é original
no momento da sua aplicação. Foram utilizadas como método
de identificação das camadas de pintura, as técnicas
de decape, remoção com solvente e remoção
mecânica através de bisturi.
Um dos importantes aspectos
que o projeto teve em conta foi a reutilização de materiais
e técnicas tradicionais na recomposição de elementos
perdidos, e no uso de rebocos com cal.
O objetivo do ato de
restaurar, entendido como revitalização é assegurar
além da integridade física, a restituição
dos seus valores simbólicos e de uma leitura integral do conjunto.
 
Av Pessoa Anta
A pintura vem a ser elemento
de destaque de um conjunto arquitetónico, daí a importância
das cores para personalizar cada imóvel, realçar valores
e as caraterísticas formais de cada elemento arquitetónico
e de cada espaço urbano. Segundo correspondia, a cor pode utilizar-se
para unificar ou individualizar, neutralizar ou acentuar, hierarquizar,
subordinar, reforçar a volumetria do detalhe, desvirtuar ou apagar.
Os critérios utilizados
para a seleção da gama cromática tendo em conta
as premissas expostas foram os seguintes:
· O fator estilístico:
O estilo arquitetónico se relaciona diretamente com a época
de construção e tinha seus códigos. Em nosso caso,
edificações erigida a finais do Século XIX e princípios
do Século XX: paredes com cores neutros, sendo os detalhes ou
relevos destacados. Esquadrias, portas e janelas, cores afins mais escuros.
As sacadas foram destacadas e os elementos de serralharia, grades, e
portões de ferro em preto verdoso para apagar o reflexo.
· O fator de pesquisa arqueológica: Confirmando o fator
estilístico, e elementos de interesse.
· O fator de uso: Para o que foi construído o imóvel.
Determinando também o uso de cores.
· O contexto urbano atual: Determinando premissas contemporâneas.
Alem dos fatores técnicos,
estéticos e históricos, outro fator importante que determino
em muitos casos a escolha das cores de cada imóvel foi o desejo
e a opinião de cada proprietário, ou inquilino.
Tendo em conta todos
estes elementos decidimos que deveríamos optar por cores fortes,
jogando com a possibilidade que nos permite a ampla gama das tintas
Ypiranga e manter uma coerência cromática, mas sem purismo
mal entendido, já que as cidades históricas, incluindo-se
o centro de Fortaleza, foram dotadas de uma sutil e vibrante policromia.
Tratamos de criar uma gramática da cor, para dar esplendor a
sua linguajem.
Como aspectos gerais
respeitamos o uso dos sanefas escuras, o remarque de portas e janelas
com tons mais claros, também decidimos valorizar na Rua Boris
cada edificação individualmente. Os conjuntos da Rua Dragão
do Mar seriam reforçados todos seus elementos componentes nos
aproximando o mais possível das cores originais. Os elementos
de carpintaria originais foram restaurados. Na Rua José Avelino
decidimos que as cores rememorassem o mais possível ao origem
de edificações populares que caraterizam esta rua. Na
Av. Almirante Jaceguai entre a Rua Boris e a Rua Almirante Tamandaré,
onde funcionava antiga Fábrica Myriam, foi restaurada toda a
fachada com seus elementos componentes investigados historicamente.
Somente tomamos a liberdade de pintar cada modulo da fachada, individualizando
cada divisão atual dos espaços interiores. E como moldura
mais distante do Edifício do Centro Dragão do Mar.
 
Rua Boris
Fortaleza/ Junho/2002.
|